quinta-feira, 23 de abril de 2015

IndieLisboa

A dimensão cosmopolita e globalizada de um festival internacional de cinema nunca deve apagar o carácter do local onde se realiza, sob o risco de se tornar num acontecimento indiferenciado, numa sucessão de eventos demasiado semelhantes entre si. O IndieLisboa tem tentado desde a sua primeira edição ser simultaneamente local e universal. Feito a pensar nas singularidades da cidade e do país onde se realiza, ao mesmo tempo que procura ter uma curadoria personalizada sobre o cinema contemporâneo mundial. Dialogando embora com outras visões nacionais ou estrangeiras igualmente atravessadas por uma preocupação com a actualidade cinematográfica que não se esgote na repetição de fórmulas ou na novidade vazia e inconsequente, não desejamos que se confunda com nenhuma delas.


É essa visão distinta que atravessa novamente toda a programação desta 12ª edição, e em particular, de um momento muito especial do festival deste ano. Resultante da encomenda feita no décimo aniversário do IndieLisboa a quatro realizadores “muito cá da casa” (Denis Côté, Dominga Sotomayor, Gabriel Abrantes e Marie Losier), vamos finalmente poder assistir aqui, em Lisboa, ao filme com o mesmo título que resultou do longo e difícil processo de produção que foi esta primeira aventura da IndieLisboa – Associação Cultural na produção cinematográfica. À semelhança do que acontece para concretizar cada edição do festival, só foi possível ultrapassar as limitações financeiras que condicionaram esta produção pelo empenho e generosidade de todos os que para ela contribuíram dentro e fora do IndieLisboa. Se o apoio da Câmara Municipal de Lisboa foi decisivo para o arranque do filme e o da NOS para a sua conclusão, não menos importantes foram os contributos individuais de várias dezenas de técnicos, actores e outras pessoas que ajudaram este projecto a ver a luz do dia de uma forma que orgulha a organização e que esta vai poder partilhar agora com todos os envolvidos, com o público português e, dentro em breve, com um público internacional mais alargado. Contando quatro histórias passadas em Lisboa tão distintas quanto as vozes dos seus quatro autores, "Aqui, em Lisboa" reflecte bem o que se pretende para esta edição do IndieLisboa: um gesto que incessantemente reinventa o cinema como ideia e como forma.

Da mesma forma, um festival deve ser continuamente repensado naquilo que é o seu modelo de programação, secções, actividades paralelas, etc. Esta 12ª edição do IndieLisboa traz algumas novidades decorrentes da necessidade que sentimos de fazer chegar melhor as nossas propostas de programação ao seu público potencial e de colocar as diferentes secções em diálogo. A principal alteração na estrutura do festival é a criação da secção Silvestre como consequência do desaparecimento de três secções distintas (Observatório, Cinema Emergente e Pulsar do Mundo). Abolindo fronteiras artificiais entre géneros cinematográficos e gerações de realizadores que marcavam o anterior desenho do festival, a Silvestre vai ser a secção mais livre e inventiva do IndieLisboa e justificar a inspiração monteiriana do seu nome. Na sua estreia, a Silvestre vai incluir desde logo um foco num realizador, apresentando a primeira retrospectiva completa da irreverente, desconfortável e prolífica obra do jovem cineasta alemão Jan Soldat, certamente um nome e um percurso que vamos continuar a acompanhar nos próximos anos.

Outra importante alteração trazida pela presente edição resulta da mais completa autonomização da Competição Nacional. Até aqui, as longas e curtas metragens portuguesas em competição estavam dispersas pelas várias secções do festival. A partir deste ano, a Competição Nacional é uma secção estanque e com um júri próprio (que avalia também a secção Novíssimos, dedicada aos valores portugueses emergentes), de forma a dar maior destaque à Competição Nacional no conjunto do festival e contribuir para a sua maior visibilidade junto do público nacional e dos profissionais estrangeiros que acompanham o festival de forma a conhecerem o que há de novo no cinema português (quase todos os filmes portugueses apresentados na Competição Nacional deste ano são estreias absolutas). 

A última novidade na organização do programa do IndieLisboa 2015 é a criação de uma secção especialmente pensada para as sessões da meia-noite intitulada Boca do Inferno e desaconselhada a almas mais sensíveis. Sem querer revelar demasiado, achamos que vai valer a pena descobrir aqui experiências cinematográficas mais bizarras, extremas ou apenas desconcertantes que serão alguns futuros filmes de culto. A restante programação do festival mantém-se dentro das linhas das anteriores edições, distribuída entre a Competição Internacional (este ano alargada a terceiras obras), IndieJúnior, IndieMusic, Director’s Cut, Herói Independente e Sessões Especiais. No Herói Independente homenageamos dois realizadores com universos vincadamente autorais e que procuram de forma estimulante renovar a tradição de um cinema resolutamente romanesco, a cineasta francesa Mia Hansen-Love e o norte-americano Whit Stillman, através de retrospectivas completas das suas filmografias até ao presente momento (no caso de Stillman, a oportunidade será também de descoberta, já que nenhum dos seus filmes teve qualquer anterior exibição em Portugal). 

Uma outra forma de o IndieLisboa se reinventar é precisamente a de não ficar acomodado e procurar sair das salas de cinema onde o festival tem lugar (este ano saúde-se a entrada do Cinema Ideal, a juntar à Culturgest, ao Cinema São Jorge e à Cinemateca Portuguesa Museu do Cinema) para criar espectadores de cinema em espaços menos conotados com a exibição cinematográfica. Nas sessões especiais, além da habitual importância dada ao cinema português, há também acontecimentos mais singulares e “fora de formato” como o concerto que antecede a exibição do filme Around the World in 50 Concerts, em colaboração com o festival Os Dias da Música (que tem este ano a música para cinema como centro e que terá como contrapartida levar o IndieJúnior também ao CCB), e a apresentação do essencial Concerning Violence numa sessão seguida de debate a decorrer na Aula Magna, em parceria com a Reitoria da Universidade de Lisboa. 

O IndieLisboa decorre de 23 de Abril até dia 3 de Maio e poderá consultar mais sobre o mesmo aqui. Mais que um festival de cinema, é um festival que já faz parte da nossa cidade.


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