quinta-feira, 20 de junho de 2013

DESTRUIR POR DENTRO E PINTAR POR FORA




Desafiaram-me para escrever sobre a minha cidade, lugar onde sempre vivi, cresci e ao qual pertenço inequivocamente: Lisboa.
Já que me deram a oportunidade de “pensar Lisboa” vou aproveitar para fazer um balanço sobre a evolução da construção na capital, ao longo dos últimos anos. Isto porque, ainda nos custa a crer que tenha sido consumada a demolição parcial do n.º 233 da Av. Almirante Reis, edifício que remata o extremo norte da Praça João do Rio
Um acto ilegal, que o município não soube travar a tempo e que aos olhos de todos, foi executado como se o exemplar em causa, da autoria de um dos expoentes máximos do modernismo, Cassiano Branco, não valesse absolutamente nada. O embargo tardio de Salgado acabou por não evitar que o crime fosse cometido.
E agora? Será que o promotor da obra “Hotel do Aeroporto, Actividades Hoteleiras, SA” vai ser forçado a reconstruir a fachada? A ver vamos…
A Expo 98 foi de facto um marco importantíssimo, do ponto de vista do planeamento urbanístico. Entre 70 e 90 Lisboa passou por uma série de metamorfoses camarárias que, ao sabor dos ventos, das modas e das vontades, a foram descaracterizando em retalhos e sobras de um património arquitectónico comprometido de forma irreversível. A sucessão dos massacres e demolições atrozes a que o edificado de interesse já foi sujeito, foi de facto incompreensível.
Essa massificação da construção, que juntou a fome das imobiliárias, à vontade de comer dos construtores, alimentou muitos interesses, que a crise acabou por ceifar. Hoje podemos dizer que em Lisboa, as reabilitações ganharam terreno às obras de construção nova, não só mas também porque se passou a ter em conta uma revalorização da cidade. Porque afinal a preservação do património, conserva o ADN das Urbes, antigas e ´tão singulares como a nossa. É isso que a pode diferenciar das outras capitais europeias, e é por isso que será tão ou mais atractivas que as demais.

Uma tomada de consciência por parte do município que chegou em boa hora, ainda que incompreensivelmente tardia. Uma mudança da betonização do edificado para reabilitações “fachadistas”, que não reduzem os prédios a entulho, mas que soam e cheiram a falso. É que a maioria delas apenas conserva a “pele” dos edifícios, esventrando os interiores, e aumentando o número de pisos, acrescentados sem qualquer contexto e coerência à estrutura original. Será apenas mau gosto dos arquitectos ou permissividade de quem decide?  Mais haveria por dizer...

                                                                                                              Pedro Marques Silva

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