quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Uma tragédia em três actos




Aristóteles divide a tragédia em prólogo, episódio e êxodo: 3 actos. O coro faz o pároclo e o estásimo e tem uma certa importância, porque assinala cada acto da tragédia. A ordem seria o prólogo (1º acto), precedendo o pároclo (primeira entrada do coro), seguido de cinco episódios alternados com os estásimos (2º acto) e a conclusão (3º acto), com o êxodo, a intervenção final do coro, que não era cantada.

I.

António José Seguro tornou-se líder do PS há dois anos. Mas a rivalidade entre António Costa e António José Seguro é muito anterior. Há mais de duas décadas, Seguro foi presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, “roubando” o lugar a Costa. E em 1990, foi também Seguro a chegar a líder da Juventude Socialista, outro lugar que António Costa nunca conseguiu alcançar.

É assim inegável que a hipótese de desalojar Seguro na liderança do PS, seria para António Costa uma vingança. Porém, Costa ficou (aparentemente) inseguro quanto ao sucesso da investida (como em 2004, quando apareceu Sócrates; e como em 2011, quando deixou Seguro passar-lhe à frente, como nos tempos de faculdade…) e não foi audaz.

Sem embargo, a carreira política de António Costa é apreciável. Presidiu ao Grupo Parlamentar do PS, de 2001 a 2004. Foi deputado e vice-presidente no Parlamento Europeu, entre 2004 e 2005. Foi Ministro de Estado e da Administração Interna de Sócrates, de 2005 a 2007. Saiu do Governo de Sócrates para vencer as eleições autárquicas de 2007 em Lisboa (sem antes apresentar as suas ideias) e infernizar a vida aos Lisboetas. Na campanha eleitoral, contou com a máquina governamental e respectivos apêndices na comunicação social. Em noite de eleições recebeu elogios hiperbólicos do primeiro-ministro Sócrates (que mais pareciam um epitáfio)...

E se carreira não lhe falta, rins de político, também não. Pessoalmente, fiquei objectivamente siderado, quando há pouco tempo, no "quadratura do círculo", vi e ouvi Costa dizer que «(...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês, basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.»

O exemplo especialmente abordado, é o do sector têxtil. A abertura do mercado português aos têxteis chineses, ocorreu em 2004, com o fim das taxas aduaneiras... E em Maio de 2007, a Federação da Indústria Têxtil e do Vestuário de Portugal pediu ao ministro da Economia para aproveitar a presidência portuguesa da União Europeia para impor barreiras às importações chinesas...



II.



É de prever que as Autárquicas darão uma vitória esmagadora ao PS, uma vez que o eleitorado tenderá a punir o PSD por uma governação que está nos antípodas das promessas eleitorais, espelhada no “disparate” de cortar os subsídios e consubstanciada no profundo desprezo que tem demonstrado em relação aos portugueses e aos direitos que demos como adquiridos, numa ab-rogação que vai dos vencimentos da função pública, às reformas dos pobres pensionistas, passando por disparates como o da TSU e previsivelmente, no prémio aos patrões que violam a lei e que no futuro pagarão indemnizações ainda mais inócuas.


António Costa sabe que depois da vitória nas autárquicas, dificilmente alguém ousará levantar a voz contra Seguro.
Mas sabe, também, que a Câmara de Lisboa será o seu mausoléu político em caso de derrota, que também sabe ser uma hipótese muito provável, apesar de concorrer pelo PS. António Costa ainda ensaiou a estratégia socrática de baixar os impostos em ano eleitoral, mas a Assembleia Municipal não foi nessa conversa. E dificilmente os lisboetas desculparão os sucessivos erros deste executivo camarário, em que o Terreiro do Paço e o Marquês de Pombal são apenas o espectro visível de dois mandatos em que se gastaram pornográficas fortunas e que mais parecem uma declaração de guerra aos automobilistas e aos Lisboetas (ainda alguém me há-de explicar como é que, saindo do túnel do Marquês, se vai para a Duque D’Ávila…). O lixo acumula-se nas ruas e António Costa faz uma campanha a pedir aos lisboetas para o guardarem em casa… A Feira Popular eternamente adiada e o Parque Mayer em que se gastou uma fortuna em projectos que nunca saíram da cepa torta; As taxas cobradas pela EMEL (envolvida num escândalo durante o mandato de Costa) que são ostensivamente um confisco. As “boas contas” à custa do produto da venda dos terrenos do Aeroporto, não convencem os lisboetas, da mesma maneira que a redução do passivo do Sporting não convence os sportinguistas. 
 
Ora, uma derrota, agora, contra Seguro, seria o fim da carreira de Costa, que seguramente sairia derrotado nas autárquicas por Fernando Seara. E depois de tal queda, só por capricho do destino alcançaria o patamar em que hoje (injustamente) está. Assim, Costa deu um passo atrás e deu um prazo a Seguro, de 10 dias, mais caricato do que a exigência em si: Seguro deverá “unir o PS” que ele próprio, Costa, contribuiu para desunir! António Costa será eventualmente líder. Um líder medroso. E por isso, perigoso.

Seguro não será propriamente o Secretário-geral ideal para o PS, porque não faz jus ao apelido. Nem pode... Não o deixa sê-lo o espólio do último episódio (socrático) desta tragédia, sem catarse à vista, que é o Portugal do prólogo abrilista, a que se segui o pároclo que foram os governos de Soares... Toda esta trapalhada à volta da liderança do PS é apenas mais um estásimo... E o êxodo, será um coro de protesto, tudo indica, mudo... Um êxodo que começou nos portugueses menos qualificados mas que já atinge os demais, que vão seguindo os conselhos do Governo.

Tudo isto tem a virtualidade de nos alertar para o facto de, dentro do PS, haver dois partidos: o PS de Sócrates e o PS daqueles que (até) percebem o (mal) que Sócrates nos fez a todos. Os que estão chocados com os gastos de 15.000 euros por mês do estudante de Filosofia; E o PS daqueles que têm saudades de fazer em Portugal o que o outro está a fazer em Paris.



III.



Agora, Costa tem um outro problema às costas: o eleitor sabe que, ao votar nele, vota em quem está à espera de uma oportunidade para tentar ser primeiro-ministro. E sabe, portanto, que não vota em Costa, mas no seu n.º2. da sua lista para as autárquicas. Dificilmente me poderão convencer que esta péssima jogada política foi apenas (mais) um erro. 

Foi noticiado que José Sócrates tem feito vários contactos, a partir de Paris, com dirigentes e ex-dirigentes socialistas sobre a situação interna do partido. E terá mesmo telefonado a Costa a dizer-lhe para avançar contra Seguro. Edite Estrela, questionada sobre se deseja que Sócrates regresse à política portuguesa, respondeu que «Tendo em conta a qualidade que tem, será uma mais-valia para o PS».

Como disse António Costa em Abri de 2011, antes de Sócrates se demitir, «O lobo mau pode disfarçar-se de avozinha, mas é o lobo mau».

Sócrates devia chamar-se Ésquilo, ou Sófocles, ou Eurípedes: é tão imortal quanto os tragediógrafos gregos.




P.S.: Esta foi a minha primeira intervenção no “Pensar Lisboa”. Não sou “bloguista”: o meu facebook é o meu blog. Tenho 33 anos e sou advogado, nascido e criado em Lisboa. Desde já, o meu agradecimento pelo convite para fazer parte desta família.

5 comentários:

  1. Mas isto é um fórum sobre Lisboa ou sobre o PSD. Eu estou-me a borrifar par io PS mas a ideia que dá é que com o PSD Lisboa fica maravilha. No ínício comecei a seguir porque se falava de Lisboa agora só falam de política!

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  2. Este blogue está cada vez mais politizado.

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  3. Caro Jozhe,

    Muito obrigado pelo seu comentário. E o que acha de nos dar a sua visão de Lisboa? Seria muito interessante e teríamos todo o gosto em partilhar.

    Pode enviar para pensarlisboa@gmail.com

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  4. jozhe fonseca e anónimo deixem me dizer-lhes que fica mal, muitooo mal, estarem a criticar este blog por debaterem ideias e posições. É por pessoas como os senhores, que só criticam que não vamos longe. Continuem Pensar Lisboa. Eu estou aqui sempre a ler vos e acompanhar-vos. Obrigado pela alegria que me dão de poder ver jovens a preocupar-se pela causa pública.

    Cumprimentos,

    Miguel A. C.

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  5. Ohhh Jozhe Fonseca, tens bom remédio não sigas pah! eu cá sigo todos os dias.

    já agora informo te do prémio mais recente de António Costa: ouvi dizer que vão fazer uma estátua ao António Costa . Ganhou o prémio de "Como estar na CML e não fazer nepia!".

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