quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Manifesto político sobre, para e de Lisboa

A Política não é um mero acto formal de agradar às massas, com propósitos eleitoralistas, numa fachada contínua através de uma oratória permanente que julga ter bons intentos, mas que apenas mascara as suas intenções pérfidas. A Política não é um mero acto formal, apologético, de alvíssaras, onde os elogios bacocos se gastam tamanho é o seu uso, tornando-se vetusto e gasto na forma como as botas são lambidas à velocidade em que o Diabo esfrega um olho. A Política não é um conjunto de jogos de interesse, feitos nos bastidores por detrás das pesadas cortinas que se colocam entre a Comunidade e os corredores do Poder, onde o poder se mascara através de uma capa negra de um sorriso maléfico, que propaga a sua insana vontade de tudo dominar, e tudo regular sem a consideração de que não se governa a si próprio, mas sim a uma Comunidade. A Política não é uma actividade travestida de boas intenções, mas que no seu fundo, manipula o titular; não deve ser o Poder a vergar o titular, deve ser o titular a vergar o Poder mostrando-lhe que é o bem comum que deve ser prosseguido e não a vertigem infernal do interesse pessoal do Poder, qual buraco negro que suga toda a vida.

O Poder surge através de um contrato social, onde o indivíduo inserido numa Comunidade, dotado de liberdade individual e livre arbítrio, consciente da sua existência e dos seus direitos e deveres, cede parte da sua liberdade para ser governado por outrem, por terceiro. Este "pacto", celebrado através do voto, atribui direitos e deveres a ambas as partes, o indivíduo considera que aquela pessoa merece o seu consentimento para que abdique de parte da sua liberdade para ser governado. É através da confiança que se funda o Poder democrático, é a confiança de que o governante, ciente de que está a cercear parte da liberdade do governado, não irá para além das fronteiras desse contrato: não irá retirar mais liberdade, irá sim trabalhar para respeitar o remanescente da liberdade que permanece na esfera individual do indivíduo. O governante deve ter uma atitude consciente de que a sua passagem pelo Poder é sempre temporária, que o serviço a favor do bem comum é tendente a aumentar a satisfação e o bem estar da Comunidade: em suma, o governante deve ser limitado e limitar-se a respeitar a propriedade privada e a liberdade do indivíduo, ao mesmo tempo que assegura a sua segurança.

Lisboa, por tempo demais, se enredou na negação deste postulado fundamental da Política e do Poder. Lisboa transformou-se num apego insondável e místico daqueles todos que a vêem, esta cidade quase milenar, como um poleiro para as suas ambições pessoais. Sem paixão, sem apego, sem interesse desinteressado, Lisboa é e foi governada por incautos intrépidos que, revestidos das melhores intenções oratórias, incapazes se mostraram de defender o superior interesse da Comunidade - o bem estar da cidade. Estragada ela ficou, poluída ela está, desorganizada ela se tornou: a Política transformou-se na politiquice, deixando-se vergar pela vertigem insistente e irresistivel do Poder que tudo quer dominar. Lisboa, entregue aos paladinos que negam a liberdade individual, que teimam em incompreender que o que faz desenvolver uma cidade - e também um país - é a capacidade de os indíviduos, individualmente considerados, poderem explorar a sua liberdade remanescente e transformá-la em benefício próprio e em benefício económico para a bem aventurança da Comunidade a que pertencem. Antes de toda e qualquer solução prática, Lisboa deve-se reencontrar com a verdadeira e clássica noção de Política: a governação da polis, a governação da civitas, desprovida de luxos, opulência, tratos privados e ambições desmedidas. O governante apenas e só serve o bem comum, não se serve a si próprio; o governante não se serve da liberdade dos outros, apenas e só deve limitar-se a respeitar a confiança e a liberdade de quem abdicou de parte da sua. Lisboa, para se reinventar, tem que redescobrir a relação com a Comunidade, tem que se libertar do jugo opressivo do Poder insano e destruidor.

Excertos de um manifesto, futuro, sobre Lisboa imaginado por este escriba, nos seus tempos livres e no meio da sua atroz ignorância

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