quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A DROGARIA DO SR. FERNANDO

O descaso com a coisa pública não conhece limites, nem mesmo nas pequenas raridades da nossa Lisboa, como era o caso da drogaria do Sr. Fernando, aqui no Bairro da Lapa. Este cavalheiro era das pessoas mais conhecidas nesta zona, pela sua afabilidade, pelo seu porte, sempre de gravata e bata branca, muito branca, tinha um sorriso para toda a gente, e o seu estabelecimento devia ter sido considerado património material da cidade pela UNESCO cá do sítio, com as suas boiseries, as prateleiras muito bem arrumadas, com janelinhas envidraçadas, gavetas e gavetões bem pintados, um mimo!

Com mais de 90 anos, passados na sua maioria ao balcão da drogaria, o Sr. Fernando deixou-nos, e deixou-nos muito tristes, pelas razões aduzidas. Quem não quis saber de tristezas foi o senhorio que, apesar de instado por alguns comerciantes para lhes alugar a loja como estava, zás catrapás deitou tudo abaixo e alugou aquela vacuidade a uns ch
ineses. Mas nestes casos o crime não compensa e o negócio também não, conquanto os chineses brindassem quem passava com um sorriso, um tanto amarelo, é certo -- não vão os espíritos mais sensíveis concluir que isto é chalaça racista, o sorriso era mesmo forçado --, mas que não bastou para atrair os passantes, o que os levou à insolvência e ao fecho das portas.

Espero bem que o senhorio tenha as maiores dificuldades em fazer negócio, os asiáticos deram má onda àquilo, e ele não merece que as coisas lhe corram bem, pela forma insensível como tratou aquele património urbano. Ele mais a junta de freguesia, que permitiu tal barbaridade, e mais a CML, que anda muito entretida a fazer rotundas que não rotundam, passeios pedonais que não pedoneiam e ciclovias que não cicloviam, faltando-lhe o tempo para fiscalizar vandalismos deste quilate.

 

João Braga

(Gentilmente cedido ao Pensar Lisboa)

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