terça-feira, 4 de setembro de 2012

A 'silly season' em Lisboa

A 'silly season' em Lisboa  

JOÃO GONÇALVES PEREIRA  

Deputado e presidente da concelhia de Lisboa do CDS-PP  

Lisboa, na silly season, é abandonada pelos lisboetas que saem para férias e é invadida por turistas que procuram os muitos encantos e belezas naturais desta cidade.  

Um turista que chegue hoje a Lisboa beneficia de uma estação de metropolitano, que já deveria existir há seguramente 30 anos, que o leva em poucos minutos ao centro da cidade. Deixadas as malas no hotel, a primeira experiência turística é procurar perder-se por entre as ruas de uma Lisboa de cuja arquitectura e luz nunca mais se esquecerá.  

Mas esta primeira impressão rapidamente desaparece quando o turista é confrontado com passeios imundos, ornamentados com lixo espalhado e dejectos caninos. Em alguns casos crescem mesmo ervas junto à estrada, como é o caso das esquinas da Av. Miguel Bombarda, mais fazendo lembrar cenas campestres próprias de 1912.  

A caminhada avança e o turista constata o óbvio: Lisboa necessita de uma urgente reabilitação do seu património habitacional - aquela que foi a prioridade do presidente Pedro Santana Lopes e da qual a actual gestão municipal tem apenas a inveja, faltando-lhe a visão.  

No âmbito gastronómico, Lisboa é uma cidade exemplar na diversidade culinária e entusiasma até os mais descrentes nestas andanças. Num restaurante, o turista incrédulo que visita Lisboa pergunta ao empregado: "Porque é que Lisboa não recupera os edifícios que estão devolutos ou que para lá caminham?" O empregado, não querendo juntar-se àqueles que fazem queixinhas do País aos de fora, responde em tom orgulhoso: "Mas agora até temos um largo em Lisboa que foi parcialmente reabilitado, o Intendente. O nosso presidente da câmara até mudou para lá o seu gabinete para acompanhar de perto as obras." O turista fica curioso e decide ir ver o Largo do Intendente, onde o Mayor tem o seu local de trabalho.  

Chegado às imediações do Intendente, com algum receio pela sua segurança e da sua família, e passando por algum tráfico de droga e também pela costumeira prostituição, o turista vê um largo bonito e bem recuperado, mas que mantém uma boa parte do edificado em mau estado de conservação. O turista, sem querer acreditar, pergunta a um vendedor de lotarias: "Este sítio onde estamos é o Largo do Intendente?" O vendedor responde-lhe: "É, sim", ao que o turista ainda incrédulo acrescenta "mas é verdade que o vosso presidente da câmara mudou o seu gabinete para aqui por causa desta obra?", e a resposta foi novamente afirmativa. O turista pensou para os seus botões: "Com tantas obras de que Lisboa necessita, quantas dezenas de gabinetes vai o presidente da câmara ter de arranjar?"  

Saído (provavelmente depressa) do Intendente, o turista e família seguem em direcção ao Martim Moniz e passam por diferentes lojas que espelham bem o espírito multiétnico e acolhedor dos portugueses. Chegados ao Martim Moniz, sentam-se numa das esplanadas e apreciam os edifícios da EPUL que custaram ao erário público várias dezenas de milhares de euros a mais do que estava inicialmente orçamentado.  

Cansados do passeio e fugindo aos inúmeros "obstáculos" com que se deparam ao longo dos passeios (caixotes de lixo, mupies publicitários, sinais, candeeiros e semáforos) , o turista e a sua família decidem regressar de táxi ao hotel.  

Essa decisão transformou-se, de modo involuntário e surpreendente, numa radical aventura de todo-o-terreno em plena cidade capital de um país europeu, entre os milhares de buracos, alguns deles autênticas crateras, que tomam extremamente difícil a circulação viária em Lisboa.  

De regresso à sua terra natal, o turista reúne-se com os amigos e descreve Lisboa: "É uma cidade lindíssima, com uma luz única, uma excelente gastronomia, uma calçada e um edificado magníficos, mas que precisa urgentemente de um novo presidente da câmara."  

1 comentário:

  1. Já foi nosso convidado. Escreveu este texto para o DN.

    Muito bem dito! Subscrevo!

    ResponderEliminar