quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A propósito do braço direito de D. José I


A Política é composta por Moral, é moldada pela Ética, é desenvolvida pela Retórica mas é "morta" pela adaga gélida da Demagogia e pelo canto de sereia - ei-la, a Oratória! - alcandorada no rochedo onde se situa a cadeira do Poder. Cadeira revestida de ouro, pérola preciosa do sonho imortal, que brilha nos olhos do mais incessante espírito perturbado pela infame ambição, pronta para esmagar no seu próprio ego o narcisimo desprovido de sensatez, mas iluminado pelo egocentrismo próprio de quem vê as suas mãos a agarrar a mais preciosa das areias, sentindo, olhando, vislumbrando como se escapa pelas frestas dos seus dedos.

A Política ouve o apelo doce e solitário daquela donzela escondida por entre a névoa, aquele breu tomado por desconhecimento e mistério, a ânsia de querer mais. Enreda-se no seu encanto, deixa-se dominar pelo seu apelo sussurrante e ei-la, finalmente, vertida no poço profundo das entranhas daquela donzela, a Corrupção. Redoma protectora, prisão infernal, olha nos olhos a Política e entrega-lhe o Poder, transformado em droga, agora apresentado como o preço pela salvação e a Luz ansiada. O Poder corrompe a Política, e a Política torna-se aquele fantasma, aquele sobrevivente moribundo que se arrasta, imparável no seu descrédito, afogada na sua agonia, torturada pela sua lenta "morte". E eis que ele surge, com tímidos passos, batendo com força com a sua bengala e, no seu olhar negro e sangrento, declara, de forma ditadorial, pretendendo a imortalidade - "Eis que eu cheguei: o Caos!".

A propósito disto.

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