segunda-feira, 16 de julho de 2012

Um Pensamento para Lisboa - Parte VI

Como se deve organizar de forma interna Lisboa?

Lisboa é um conjunto de bairros, todos eles com forças próprias, idiossincracias internas e defeitos genéticos. As suas potencialidades devem ser exploradas ao máximo, porque Lisboa forma-se como a soma das suas partes, e não individualmente considerada. Com este ponto prévio bem assente, contudo, não se deve à partida rejeitar a visão de que Lisboa se deve organizar de uma forma clara e que deve, acima de tudo, delimitar, no seu interior, com uma enfoque especial na regulamentação e nos critérios de selecção, zonas de organização. A especialidade é o caminho para o sucesso, quer económico, quer social, quer da Comunidade no seu geral. A especialização permite uma progressiva consciencialização do papel que cada bairro, cada Junta de Freguesia pode ter no desenvolvimento de uma política geral para Lisboa e para os lisboetas.

A divisão interior de Lisboa por áreas (habitacional, empresarial e financeira) não tem como objectivo uma qualquer estigmatização dos seus habitantes ou a criação de becos ou de zonas interditas. Não se nega que não se está perante uma visão politicamente correcta, esta nova forma de censura, este novo "lápis azul", mas, ao invés, procura-se uma solução ideológica que seja naturalmente politicamente incorrecta, porque aqui se encontra um verdadeiro pensamento desprovido de qualquer lógica partidária ou logicismo em termos de candidatura autárquica. A verdadeira resolução dos problemas de Lisboa deve passar por uma assunção clara, da parte de quem governa e de quem pretende governar, de que os problemas gerais da Comunidade devem ser resolvidos através de soluções que sejam buscadas na Comunidade, que seja ouvida a Comunidade, que a Comunidade tenha um papel decisivo na sua discussão e na sua decisão. Decisão essa que não deve estar apenas restringida ao momento da eleição da equipa camarária; deve ir muito mais longe e estar presente em cada bairro, em cada Associação de Moradores, em cada Junta de Freguesia. E o papel da CML passa por permitir que estas agremiações de moradores tenha um papel efectivo de decisão e de concretização das politicas no terreno, sem uma asfixia reguladora por parte da autoridade central.

No fundo, a divisão de Lisboa por áreas permitirá uma melhor reafectação de recursos, quer humanos, quer financeiros. Mas, mais importante, permitirá que quem pretende viver em Lisboa possa saber com o que contar; permitirá que as empresas saibam onde se podem instalar, de forma prévia e sem receio de que a legislação municipal mude ao sabor dos interesses privados de quem governa. Em suma, Lisboa deve-se potenciar através da sua riqueza interna, através da exploração da soma das suas partes e não permitir que caiam no esquecimento atroz da política incompetente.

2 comentários:

  1. E como sugerias a divisão destas zonas?

    Eu tenho para mim que Lisboa é suficientemente pequena para termos o luxo de a atravessarmos em menos de uma hora. Estamos à distância de uma hora de qualquer ponto da cidade em cada momento. Seja do Oriente a Algés, seja da Ameixoeira ao Calvário.
    Não deveríamos nós aproveitar esta malha e dispersar ao invéz de guetizar?

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  2. Jorge, a minha desculpa pela demora na resposta, mas isto tem sido um dia complicado...

    Em primeiro lugar, uma questão de linguagem. Não creio que as minhas palavras possam ser interpretadas como uma forma de guetizar Lisboa. Compreendo o que pretendes dizer, de forma provocatória, e por isso passarei aqui umas linhas a explanar, com mais detalhe, o meu pensamento.

    É verdade que não estamos perante uma cidade com o tamanho de Berlim ou de Londres, mas estamos perante uma cidade que, parece-me, tem potencial para se dividir internamente e, com isso, ganhar economicamente. Aquilo que te referes como "dispersão" em contraponto a "guetizar" é exactamente o sentido que quero transmitir. Não se trata de zonas estanques onde não existe comunicação entre elas. É sim uma mera divisão procedimental onde tu consegues que zonas da cidade se especializem nesta ou naquela actividade. Exemplo: Oriente como sector financeiro; Baixa como sector do pequeno comércio, e assim em diante. Com isto, não se devem inferir que apenas nestas zonas se devem situar esta ou aquela actividade; bem pelo contrário, a bem da concorrência e da diversificação do negócio, as actividades devem estar bem espalhadas pela cidade.

    Mas nada impede, creio, que se criem, em termos locais (e de variadas formas), incentivos a que esta ou aquela zona da cidade sejam especialmente dedicadas a esta ou aquela actividade. Pretende-se fluidez e uma maior organização interna de Lisboa, em vez desta crónica desorganização. E friso com bastante veemência este ponto: deve ser um processo, a concretizar, com especial e forte intervenção das Juntas de Freguesia, dos moradores, das Associações de Moradores, enfim, o que digo e insisto, envolver a sociedade civil e dar-lhe um grande quinhão da discussão.

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