segunda-feira, 16 de julho de 2012

Trânsito em Lisboa: uma questão de veículos ou de organização?



Existem artérias em Lisboa que, em hora de ponta, são um verdadeiro inferno para a circulação automóvel. Os exemplos mais flagrantes que conheço (pois admito que existam mais) são a Avenida 24 de Julho, a Avenida Infante Dom Henrique e a Avenida Fontes Pereira de Melo. Sem ignorarmos o elevado número de veículos que circulam na nossa cidade (mais do que desejável), o factor que me parece contribuir em maior escala para o caos no trânsito nestas artérias prende-se mesmo com questões de organização. Se na Avenida Infante Dom Henrique o problema se prende com as intermináveis intervenções que se vão sucedendo naquela via (que recentemente “obrigaram” a reduzir a circulação a uma única faixa no sentido do Terreiro do Paço), já na Avenida 24 de Julho e na Avenida Fontes Pereira de Melo existe uma gritante descoordenação entre os semáforos que faz com que os condutores desesperem no trânsito.


Soluções para o problema do trânsito em Lisboa? Além da medida mais óbvia e fácil de implementar que passa por sincronizar os semáforos de forma a regular o trânsito (a sua verdadeira função) e não a instalar o caos, existe uma outra mais estrutural pela qual todos os Lisboetas suspiram: uma rede de transportes alargada e eficiente. A grande maioria dos Lisboetas não opta por levar veículo para o respectivo emprego por comodidade ou por capricho, enfrentando o consequente trânsito e dificuldades de estacionamento. Fazem-no antes porque não existe uma rede de transportes que constitua uma verdadeira alternativa, mormente para aqueles que residem nas zonas limítrofes da cidade de Lisboa. A oferta hoje existente é (relativamente) cara, oferece poucas alternativas, e, a mais das vezes, implica o dispêndio de demasiado tempo para os percursos em causa. A solução passará, quanto a mim, por colocar todas as empresas de transportes que operem na zona da grande Lisboa sob uma mesma autoridade, permitindo deste modo coordenar da melhor forma os meios disponíveis e, além disso, sincronizá-los de forma a que os utentes cheguem ao destino com a maior economia de tempo possível. Complementarmente, haverá que criar mais interfaces de transportes. Numa cidade da dimensão de Lisboa não basta o Oriente, Sete Rios, Santa Apolónia e Cais do Sodré. Talvez com medidas como esta seja possível reduzir o número excessivo de veículos que circulam em Lisboa e, assim, melhorar não só a circulação nas vias mas ainda contribuir para melhoria da qualidade do ar que os Lisboetas respiram. Qual a vossa opinião?

8 comentários:

  1. Muito interessante Ricardo esta análise.

    Lembrar-te que em tempos se falou de mais um túnel entre o do Marquês e Saldanha, de forma a avançar com o trânsito por baixo da cidade e não a engarrafar cá em cima.

    Onde podias entrar pelas Amoreiras e sair na segunda circular ou directo para a Calçada de Carriche.

    No que diz respeito aos sinais é anedótico. Pois parece que temos uns putos a brincar aos semáforos. Pois não jogam bem e temos zonas onde o trânsito pára demasiado para o tráfego existente.

    Interessante também ver que na nossa rubrica, o nosso convidado aborda o trânsito como um grande problema na nossa cidade.

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  2. Caríssimos Falcão e Diogo,

    Este é um dos problemas de fundo de Lisboa, de entre outros. Parece-me, Diogo, que "furar" a cidade por baixo não seja uma alternativa viável. Não só por causa das redes do Metro, que causam sempre problemas de engenharia, contudo, solúveis; mas sim, principalmente, pelo facto de achar que os condutores não são "toupeiras", para além de não conhecer nenhuma capital europeia - para além das que já visitei - que usasse esse expediente.

    Por outro lado, o Falcão refere algo que é de todo o modo importantíssimo para Lisboa: a concentração da gestão dos transportes numa única autoridade. Por normal, sou fã incorruptível da descentralização mas, creio que, neste ponto em específico, Lisboa beneficiaria de uma autoridade central que juntasse Metro, Carris, CP e transporte fluvial. Isto sem preuízo de haver uma descentralização de funções dentro dessa grande autoridade central de planeamento e controlo.

    Mas esta decisão, como praticamente a grande maioria, creio, não dependem, apenas, da boa vontade camarária, mas sim, de uma legislação nacional e de negociações com o Governo. Neste tempo de redução de custos e adequação da oferta ao que o mercado necessita, sempre com especial atenção às despesas, sempre numa lógica de sustentabilidade financeira, este problema deve ser atacado de frente.

    Ah, e claro, que se lixe o politicamente correcto: privatização dos transportes públicos, naturalmente.

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  3. Pedro,

    Não precisas ir muito longe e vês em Madrid, os túneis a atravessar as principais artérias da cidade. Não se trata de toupeiras, trata-se de maior fluidez de trânsito.

    No que diz respeito aos furos e metros, esses estavam precavidos. Aliás, como disse anteriomente essa foi uma proposta das últimas eleições autarquicas.

    Seria uma solução a ponderar. Não venceu, mas também quem venceu não tem alternativas, chega ao desplante de alterar os semáforos pela zona do Marquês para parecer que ali tem mais trânsito...

    É o triste fado de Lisboa.

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  4. Diogo,

    Lá está, Madrid é exactamente o meu calcanhar de Aquiles, apesar de ter ido lá duas vezes não me apercebi desse fenómeno porque, também seja dito, poucas horas estive lá e quando estive apenas andei a pé.

    Não me parece uma alternativa viável, friso, mas concordo contigo quando não aparecem alternativas de quem deveria propô-las. Admito que os argumentos de diminuição da poluição e melhor organização do tráfego em Lisboa são bastante aliciantes. Mas creio que a melhor solução, e é aquela que defendo, é uma alteração estrutural na gestão e oferta dos transportes públicos em Lisboa. Não elimina o problema dos carros (se é que é um problema, nem toda a gente é obrigada a ir de transportes públicos), isso é algo utópico, mas permite uma solução satisfatória para todas as partes.

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  5. Hoje já não tanto, mas durante muitos anos fui utente dos transportes públicos da Grande Lisboa. E, evidentemente, é gritante a desorganização que preside à rede de transportes da nossa cidade.

    Da zona de Belém até São Sebastião, de automóvel, logo pela manhã, demorava sempre cerca de 30 minutos - um percurso que, em condições ideais, poderia demorar um terço do tempo. Mas até nem era muito mau comparando com o tempo dispendido em transportes públicos: mercê dos itinerários e horários da Carris, o percurso não era feito em menos de 50 minutos/uma hora. O regresso a casa era normalmente ainda mais demorado.

    A sugestão de uma única entidade gestora de transportes é muito pertinente e, a meu ver, é mesmo a única maneira de melhorar o problema dos transportes de Lisboa. No entanto, com tantas empresas de transportes diferentes a actuar num mesmo espaço, o problema é mais do que de organização. Tem a ver com concorrência e com monopólios naturais que se criaram. É um problema endémico. O melhor exemplo de que me consigo lembrar é que enquanto a CP estiver a servir a linha de Cascais até Algés e daí até ao Cais do Sodré, o Metro nunca poderá chegar até junto do rio.

    Por outro lado, há uns anos foram criados espaços de estacionamento em Monsanto, para tentar descongestionar o centro da cidade, nomeadamente o crónico acesso A5/Viaduto Duarte Pacheco. Todavia, a dependência das carreiras da Carris, o isolamento e falta de segurança nos parques e o facto de não haver uma alternativa para os próprios autocarros (ou seja, quem optasse por esta solução acabaria por demorar mais tempo) tornam essa opção indesejável. Um exemplo crasso de falta de planeamento.

    No entanto, aqui tão perto podemos encontrar exemplos muito bons. A Parques Tejo, que, se não me engano, gere os parques de estacionamento no Concelho de Oeiras, taxa o estacionamento junto à estação de comboios de Oeiras a €1,00 por dia, tarifa única de "interface" (é o que diz o ticket de estacionamento). Parece-me uma solução bastante equilibrada em termos de custo para o utente e posso garantir que não faltam lugares, a qualquer hora - mesmo que fiquem um pouco mais afastados da estação, nunca estão a mais de 2/3 minutos a pé. Será assim tão difícil obter soluções concertadas em Lisboa?

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  6. Caro Falcão,

    Não tenho grandes habilitações nem conhecimntos para te dizer qual o porquê do caos relativamente ao tráfego, mas já relativamente aos transportes públicos tenho um doutoramento honoris causa, fruto de 8 anos contínuos a utilizá-los diariamente.

    E a meu ver, os dois principais problemas são os seguintes:

    1) Ausência de interfaces suficientes: assim de repente, só me consigo lembrar de três, sendo que o único que tem alguma qualidade é o do Cais do Sodré (os outros são o Oriente e Sete Rios). Teria forçosamente de existir mais locais - e melhores - onde houvesse o máximo número de transportes diferentes para facilitar a fluidez e escoamento dos passageiros. O problema é que, na maior parte das vezes, perde-se mais tempo a aguardar o respectivo transporte do que a utilizá-lo efectivamente.

    2) Este segundo problema acaba por estar intimamente relacionado com o supra exposto: tal como bem referes, as empresas do ramo deveriam estar todas sob a mesma égide, ou no mínimo melhorarem os canais de comunicação entre si, já que a dessincronização entre os vários meios de transporte é gritante, roçando os limiares do absurdo.

    Dou um exemplo prático: o interface do Cais do Sodré tem quatro meios de transporte disponíveis (comboio, metro, autocarro e barco). Se por seu lado com os autocarros até se compreende a falta de sincronia (estão sujeitos aos problemas de tráfego abordados no texto), já no que concerne aos restantes meios de transporte a conversa é outra. Quantas e quantas vezes já me aconteceu perder um comboio no período nocturno (salvo o erro, a partir das 21h só há comboios de 30 em 30 minutos) por um minuto, porque o metro não chegou à estação do Cais do Sodré a tempo. A menos que consiga igualar o Usain Bolt, ninguém consegue apanhar o comboio a tempo e horas nessas situações. O mesmo acontece com os barcos. Ou seja, uma viagem que supostamente duraria 45 minutos (até Oeiras), durará o dobro do tempo, sensivelmente.

    Miguel Tavares de Pinho

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  7. Não precisas ir muito longe e vês em Madrid, os túneis a atravessar as principais artérias da cidade. Não se trata de toupeiras, trata-se de maior fluidez de trânsito.

    Quando fui reportar sobre a noite de Madrid, contaram-se os taxistas e os locais como foram estes túneis alvo de grandes polémicas. Agora feitos todos gostam, mas foram de facto controversos. Agora, pesam na bolsa de todos os espanhois. E de crise sabemos todos um pouco.

    Concordo com a gestão única. E sou total defensor de corredores BUS por todo o lado e da ultra-taxação com mão de ferro e de fiscalização salazarista do transito não alfacinha em Lisboa. Só assim vamos lá, quer em fluidez quer em diminuição da poluição.
    O carro como forma de entrar em Lisboa tem de ser encarado como um super-luxo. Como deslocação em Lisboa por Lisboetas tem de ser encarado como uma solução de último recurso para quando mais nada serve. Ir para o trabalho, dentro de Lisboa, de garagem em garagem tem de terminar. Ou então a estes automobilistas tem de se lhes imputar o verdadeiro custo da sua comodidade pois existem externalidades negativas para todos os outros que se deslocam em transporte público, a pé ou em transporte não motorizado.

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  8. Obrigado a todos pelos Vossos contributos.

    Relativamente às ideias-chave que retiro dos comentários feitos, a minha opinião é a seguinte:

    1 - Túneis: concordo com o jfd quanto ao facto de os túneis representarem um investimento muito caro. Se bem delineado, e uma vez concretizado, seriam uma mais-valia para a circulação em Lisboa. Porém, o problema coloca-se a montante. Grande investimento, problema das obras (que tornariam o trânsito ainda mais caótico), além de que seria um "incentivo" a trazer os veículos para Lisboa quando a política, quanto a mim, deve ser a inversa;

    2 - Gestão centralizada dos transportes: parece que reúne consenso;

    3 - Problema da dessincronização dos transportes: talvez o maior obstáculo e aquele que só se resolve com uma gestão centralizada. Realmente não faz sentido que um utente se veja forçado a demorar 1h30m para chegar ao emprego por estar metade daquele tempo parado à espera do próximo transporte.

    4 - Criação de mais interfaces de transportes: tal como refere o Miguel, e eu também aflorei no texto, realmente existem poucos interfaces de transportes em Lisboa. Uma cidade desta dimensão precisa de mais. Além disso, verifica-se que o lado ocidente da grande Lisboa (a chamada linha de Cascais) está muito mal servida de interfaces o que "obriga" a recorrer aos carros e entupir a A5;

    5 - Parques de estacionamento: o exemplo do JP quanto à Parques Tejo parece-me interessante. Seria óptimo proporcionar aos utentes a possibilidade de deixar o carro fora de Lisboa, junto a um interface de transportes, a preços acessíveis, e entrar em Lisboa de transportes públicos.

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