quinta-feira, 12 de julho de 2012

Rua Ivens, no Chiado - "Rua quê?"

              Roberto Ivens
Roberto Ivens
Faz hoje 162 anos que nasceu na freguesia de São Pedro, Ponta Delgada, Roberto Ivens, o grande oficial da Armada, administrador e explorador do continente africano Português, filho de pai inglês e de mãe açoriana (mais concretamente em 12 de Julho de 1850).
Rua Ivens, no Chiado, em Lisboa

Mas perguntam os leitores que ligação tem Roberto Ivens (fotografia à esquerda) à nossa cidade de Lisboa. Pois bem, não só tem a Lisboa, designadamente no Chiado (fotografia à direita), mas por todo Portugal existem dezenas de ruas com o seu nome, prestando-lhe a devida homenagem. O próprio título deste "post" deriva do simples facto de já tantas vezes ter ouvido: -"Rua quê?" -"Rua Ivens" (pronunciando, correctamente, "aivens") -"Mas como é que isso se escreve?" -"Com um 'i'." Na verdade, foi na nossa cidade de Lisboa, então capital da Corte, que em 1861 e com apenas 11 anos o jovem Roberto Ivens é inscrito na Escola da Marinha (Escola Naval), ali fazendo os estudos que o conduziram a uma carreira como oficial de marinha. Formado com elevadas classificações, iniciou a carreira militar e percorreu o mundo em diversas missões.
 
 
A 10 de Outubro de 1874, completa os três anos de embarque nas províncias ultramarinas: regressando a Portugal, em Janeiro de 1875 faz exame para segundo tenente fora da barra de Lisboa. Em Abril de 1875, segue na corveta “Duque da Terceira” para São Tomé e Príncipe e daqui para os portos da América da Sul. Regressando em Abril de 1876, parte no mesmo mês, no Índia, para Filadélfia, com produtos portugueses para a Exposição Universal daquela cidade. 
Hermenegildo Capelo e Robert Ivens

Ao regressar a Lisboa, soube do plano governamental de exploração científica no interior africano, destinado a explorar os territórios entre as províncias de Angola e Moçambique e, especialmente, a efectuar um reconhecimento geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Foi, de imediato, oferecer-se para nela tomar parte. Como, porém, a decisão demorasse, pediu para ir servir na estação naval de Angola. Aproveitou esta estadia para fazer vários reconhecimentos, principalmente no rio Zaire, levantando uma planta do rio entre Borud e Nóqui.
 
 
Face às mais que previsíveis decisões da Conferência de Berlim era preciso demonstrar a presença portuguesa no interior da África austral, como forma de sustentar as reivindicações constantes do mapa cor-de-rosa entretanto produzido. Para realizar tão grande façanha, são nomeados Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.
 
 
Feitos os preparativos, a grande viagem inicia-se em Porto Pinda, no sul de Angola, em Março de 1884. Após uma incursão de Roberto Ivens pelo rio Curoca, a comitiva reúne-se, de novo, desta vez em Moçamedes para a partida definitiva a 29 de Abril daquele ano.
 
 
Foram 14 meses de inferno no interior africano, durante os quais, a fome, o frio, a natureza agreste, os animais selvagens, a mosca tsé-tsé, puseram em permanente risco a vida dos exploradores e comitiva. As constantes deserções e a doença e morte de carregadores aumentavam o perigo e a incerteza. Só de uma vez, andaram perdidos 42 dias, por terrenos pantanosos, sob condições meteorológicas difíceis, sem caminhos e sem gente por perto. Foram dados como mortos ou perdidos, pois durante quase um ano não houve notícias deles.
 
 
Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas; Hermenegildo Capelo recolhe espécimes de plantas, rochas e animais. A 21 de Junho 1885, a expedição chega finalmente a Quelimane, em Moçambique, cumpridos todos os objectivos definidos pelo governo. Na viagem foram percorridas 4500 milhas geográficas (mais de 8300 km), 1.500 das quais por regiões ignotas, tendo-se feito numerosas determinações geográficas e observações magnéticas e meteorológicas. Estas expedições, para além de terem permitido fazer várias determinações geográficas, colheitas de fósseis, minerais e de várias colecções de história natural, tinham como objectivo essencial afirmar a presença portuguesa nos territórios explorados e reivindicar os respectivos direitos de soberania, já que os mesmos se incluíam no famoso mapa cor-de-rosa que delimitava as pretensões portuguesas na África meridional.
 
 
Finda a viagem de exploração, Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo foram recebidos como heróis na nossa cidade de Lisboa. O próprio rei D. Luís dirigiu-se ao cais para os receber em pessoa e os condecorar à chegada. O rio Tejo regurgitava de embarcações. Nunca se havia visto tamanho cortejo fluvial. Acompanhados pelo rei foram conduzidos ao Arsenal da Marinha para as boas vindas, com Lisboa a vestir-se das suas melhores galas para os receber. Foram oito dias de festas constantes, com colchas nas varandas, iluminação, fogos de artifício, recepções, almoços, jantares e discursos sobre a heróica viagem.

Foi, sem dúvida, um dos últimos grandes exploradores portugueses. A sua grande façanha foi a travessia do continente africano. Roberto Ivens partiu de Angola e chegou a Moçambique, passou por inúmeros perigos de toda a ordem. Caracterizou minuciosamente o espaço austral africano. O seu livro “De Angola à Contracosta” foi um sucesso e um relato das aventuras que marcaram a sua vida. Foi recebido como herói no País.

Aqui fica a merecida e justa homenagem a uma rua de Lisboa que deve o seu nome a um grande e temerário explorador que engrandece a nossa cidade, juntamente com Hermenegildo Capelo.

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