sexta-feira, 13 de julho de 2012

Armas de Lisboa

Lenda dos Corvos de S. Vicente

 

Muito se fala da nossa cidade de Lisboa, dos seus enigmas, problemas, últimas novidades, informações, originalidades, exposições, concertos, figuras históricas, mecenas, etc.



Armas da Cidade de Lisboa

Hoje lembrei-me de tentar fazer reviver aos lisboetas e aos leitores do Pensar Lisboa (e apenas reviver pois muitos sabem e conhecem mais e melhor do que eu) a mítica e fantástica Lenda dos Corvos que precede a Porta de S. Vicente ou da Mouraria. Na verdade, o verdadeiro padroeiro de Lisboa, S. Vicente, é comemorado no dia 22 de Janeiro. Não fosse a celebração habitual da diocese da cidade, a data passaria em branco para a maioria dos lisboetas. Ao contrário do que acontece em outras cidades do mundo de identidade cristã católica, cujo dia do santo padroeiro é feriado, em Lisboa não o é. Santo António é para o alfacinha, o seu santo padroeiro. Este equívoco histórico, religioso e popular tem as suas raízes nos primórdios da nação portuguesa, na época do seu primeiro rei, Dom Afonso Henriques, uma história que merece ser contada e conhecida por todos.


Imagem que representa o corpo de
S. Vicente no barco, com os corvos a
guardá-lo, conforme a lenda.

A 1 de Setembro de 1373, grande parte da população arregaçava as mangas, e metia mãos à obra para construir a nova muralha de Lisboa. D. Fernando e o conselheiro Ares de Almada observavam escrupulosamente o critério seguido na escolha dos locais em que, aos poucos, se iam rasgando as portas e os postigos da muralha. Uma delas devia dar passagem ao povo que visitava a Mouraria, o bairro que os mouros ocupavam fora de portas desde a conquista da cidade. Seria a porta da Mouraria ou de S. Vicente, de acordo com a lenda que contamos de seguida:

No tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros, estes ordenaram que todas as igrejas fossem convertidas em mesquitas muçulmanas. O corpo de S. Vicente, diácono de Saragoça, martirizado em Valência durante as perseguições de Diocleciano, no ano de 303, foi trazido para Sagres pelos moçárabes de Espanha, onde permaneceu até 1173. Os cristãos de Valência quiseram pôr a salvo o corpo do mártir S. Vicente, que estava guardado numa igreja. As Astúrias eram a única região cristã da península. Para levar o corpo para as Astúrias, fizeram-se ao mar. Como as águas estavam turbulentas, foram forçados a aproximar-se da costa. Perguntaram então ao mestre da embarcação que terra tão bonita era aquela. O mestre respondeu-lhes que era o Algarve. Pouco depois o barco encalhou e forçou-os a passar a noite naquele lugar. Na manhã seguinte, quando se preparavam para retomar viagem, avistaram um navio pirata. O mestre da embarcação propôs-lhes afastar-se com o navio para evitar a abordagem dos corsários, enquanto os cristãos se escondiam na praia com a sua relíquia. Depois viria buscá-los. O barco nunca mais voltou e os cristãos ficaram naquele lugar. Construíram um templo em memória de S. Vicente e formaram uma pequena aldeia à sua volta. Entretanto D. Afonso Henriques entrou em guerra com os mouros do Algarve. Como vingança, os mouros, arrasaram a aldeia dos cristãos de S. Vicente e levaram-nos cativos. Passados muitos anos, D. Afonso Henriques foi avisado de que existiam cativos cristãos entre os prisioneiros feitos numa batalha contra os Mouros. Chamados à presença do rei, um deles, já muito velho, contou-lhe a sua história e confidenciou-lhe que tinham enterrado o corpo de S. Vicente num local secreto. Pedia ao rei que resgatasse o corpo do mártir para um local seguro. D. Afonso Henriques resolveu viajar com o cristão a caminho de S. Vicente, mas este morreu durante a viagem. Sem saber o local exacto onde estava o santo, D. Afonso Henriques aproximou-se das ruínas do antigo templo. D. Afonso Henriques avistou um bando de corvos que sobrevoavam um certo lugar. Os seus homens escavaram e encontraram o sepulcro de S. Vicente, escondido na rocha. E naquele ano de 1173, por sua iniciativa, os ossos do Santo são trasladados para Lisboa, num acto político e religioso de grande transcendência, pois a presença das relíquias do Santo, que haviam resistido a todas as tentativas dos romanos para as destruírem, iriam conferir à Cidade o dom da perenidade. Trouxeram o corpo de S. Vicente de barco para Lisboa e durante toda a viagem foram acompanhados por dois corvos, cuja imagem ainda hoje figura nas armas de Lisboa em testemunho desta história extraordinária.

Estátua de S. Vicente, na Rua de S. Tomé
junto ao Miradouro de Santa Luzia

Daí ter sido aquele local, em termos alagadiço, onde tinham dado à costa os restos mortais do Santo dentro de uma caravela cheia de corvos, o da construção da Porta de S. Vicente ou da Mouraria.

Figuram, por isso, nas armas de Lisboa, dois corvos pousados numa caravela, um à proa outro à popa, em atitude vigilante, os quais, segundo a lenda, acompanharam o corpo do Santo durante toda a viagem, de Sagres até Lisboa. S. Vicente foi, desde então, reconhecido como padroeiro da cidade. Com culto estabelecido há centenas de anos, tem a sua figura representada nos Painéis de Nuno Gonçalves, também chamados de S. Vicente.

Os corvos faziam parte do logótipo da cidade de Lisboa, até que foi mudado pelo antigo Presidente da Câmara Santana Lopes, perdendo, a nosso ver, toda a envolvente histórica e lendária que uma capital europeia de renome não podia deixar de ter. Fica o nosso protesto para que os corvos voltem a fazer parte do logótipo. O que acham?

(vide Infopédia. Porto, Porto Editora, 2003-2012)
 

1 comentário:

  1. Grande texto. Excelente a aquisição.

    Gostei de ler.

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