quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Lisboa, cidade cosmopolita, mas perdida nos vícios de um povo

Depois de uma ausência prolongada devido ao trabalho universitário - deixando já o meu pedido de desculpas aos nossos estimados e fiéis leitores - eis que se inicia uma nova rubrica pessoal, subordinada à ideia de um dia, um post.

Várias vezes por entre longas caminhadas pelas ruas tortuosas desta capital de insondável mistério e misticismo, a mesma pergunta me assaltava o espírito: será possível que Lisboa possa ser um ponto de encontro entre os vícios da Europa do Sul e o virtuosismo da Europa do Norte? Lisboa não cresceu virada para a Europa, fez-se cidade e capital de um Império virada para o Atlântico, com uma visão cosmopolita. Visão essa que, temo, se esteja a perder nas minudências dos problemas e nos pormenores mais mundanos em que executivos de tons rosas, com ajudas de meros "independentes" que mudam de camisa como quem bebe um café todos os dias, se debruçam, sem olharem para a "big picture". E com este prefácio, vou mais fundo nas minhas dúvidas existenciais, pensando especificamente nos problemas e discussões - como sempre, pérfidas, sem qualquer fundamento ideológico ou científico, onde apenas se resvalam argumentos de índole "ah e tal, os meus direitos são melhores que os teus e eu não os quero perder por nada deste mundo, pois são direitos adquiridos" - em torno da ideia (ou será uma tragédia?) de reconstruir por completo o sistema de transportes públicos em Lisboa.

Não cabe a mim discutir a evidência de que 35 anos de desleixo orçamental, financeiro, um autêntico "regabofe" ao bom velho estilo romano nos seus tempos de Império, em que a culpa deve ser repartida por todos (hoje em dia estamos a assistir ao epitáfio do 25 de Abril...), nos levaram a esta situação em que, qual família à beira da falência, se vê obrigada a voltar a padrões de vida e de consumismo condignos com a nossa parca competitividade e falta, convenhamos, de riqueza. E, naturalmente, quando é preciso cortar, corta-se em tudo, especialmente se não se tiver um plano a médio/longo prazo que sirva para reconfigurar, por completo, a relação entre o Estado e o indivíduo, o cidadão. Olho para Lisboa, olho para as suas colinas, e vejo uma cidade que, desordenada, caótica, cheio de defeitos que nascem à flor da sua pele arquitectónica, podia seguir os melhores exemplos europeus no que toca à mobilidade urbana. Não sei se o problema é meu, não sei se passei demasiado tempo em Berlim, ou em países da Europa de Leste, a pender para a Rússia, onde - pasme-se - os transportes públicos são eficientes, e a bicicleta é considerada algo "absolutamente normal" (citando algo em Lituano, mas já transporto para Português); apenas sei que Lisboa não merece este pandemónio de carros e problemas crónicos de trânsito.

Uma vez alguém me disse: "não sejas parvo, esta cidade está cheia de colinas, queres que sejam todos tipo Merckx?!" (tirando o facto que podia ter referido o Joaquim Agostinho, tinha-lhe ficado melhor...) e eu simplesmente não sei como responder directamente a tão vesga visão e parca moralidade intelectual. Lisboa é uma cidade rica em termos de paisagens, um passeio por Belém ou pela Baixa revela as idissioncracias que nos tornam únicos e nos metem nos rankins mais elevados de cidades a visitar. E nada melhor do que ser abrangente, nada melhor do que pensar: será que Lisboa tem a capacidade - e, quiçá, a coragem - de ser a vanguarda de uma mudança de mentalidades em que o transporte individual - o egoísmo luso - é substituído pela comunidade e pela partilha de sacrifícios (físicos, será?) de um transporte que, acima de tudo, é ecológico (e não, não me venham com conversas da "treta" de ecologistas disfarçados de não políticos em que desbocam a palavra "sustentabilidade", esquecendo que isso é cientificamente impossível e basta ter um pouco de bom-senso para o perceber).

Será uma aspiração demasiado europeia para um país com mentes atávicas? Provavelmente, sofremos de vícios crónicos que mudam em décadas longas de educação persistente e, acima de tudo, eficiente e competente. Fica apenas a sugestão: não basta pensar em Lisboa como um amontoado crónico de transportes públicos, com raciocínios tacanhos de "perde-se uma estação, perde-se uma linha da Carris", de uma visão imediata e passadista. Acima de tudo, trata-se, sim, de uma questão de consciencialização cívica, de uma forte consciencialização. Possível neste país? Tenho dúvidas, quase uma certeza absoluta, de que não é possível porque o Estado esmaga, destrói, implode. Infelizmente, assim é e parece que não vai mudar tão rapidamente, o que é pena e trágico.


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