segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quinta das Cesárias: inadmissível é um adjectivo simpático para descrever esta situação

 Não se trata de reconhecer o inestimável valor de uma casa que serviu de inspiração para o Ramalhete da melhor obra de todos os tempos da literatura portuguesa. Não se trata de impor uma moralidade acima de todas as provas, porque essa busca é o primeiro caminho para a corrupção mais perene. O que se trata é que, da mesma forma que na antiga Roma o princípio do descalabro começou, entre outras razões, quando o ager publicus começou a ser confundido com o ager privatus.

Situações como esta, com complementos aqui, não podem ser tomadas de ânimo leve. Frases como "a câmara não comenta" ou "a câmara não é obrigada a responder" são um insulto para a inteligência dos lisboetas, são um insulto para quem, como eu, considera que deve haver uma informação transparente e frequente dos organismos públicos, de que nível adminstrativo sejam, para que haja um efectivo controlo político por parte dos eleitores. Indignado e revoltado é o mínimo que uma pessoa de bom senso deve sentir ao ler este tipo de notícias.

Novamente, não se trata de saber a importância que este edifício teve na literatura portuguesa; não se trata de afirmar, e reafirmar, que a Cultura é um dos maiores bens que Lisboa tem, que deve ser preservado e que deve ser revitalizado através do Turismo. Não, trata-se de valores que surgem num patamar superior, trata-se de uma perspectiva sobre como deve ser a política e como devem ser conduzidos os assuntos do Poder. Quando a esfera privada actua de forma tão impune e de forma tão livre, ultrapassando qualquer nível de decisão camarária (sem retirar responsabilidades que a própria Câmara deve ter), em que as pessoas com interesses directos no projecto e na questão em causa mudam de lugares como quem muda de camisa. Trata-se de perceber e entender que as incompatibilidades servem para proteger o erário público, a decisão pública, torná-la, o máximo possível, impermeável a esquemas de corrupção. Não estou a dizer que seja este o caso, não pretendo acusar e apontar o dedo, mas que esta história cheira mal, lá isso cheira, e muito mal.

Deixo o leitor com a notícia à frente dos seus olhos, para tirar as suas próprias conclusões e acima de tudo, colocar a mão na consciência e perguntar-se a si próprio: como é possível que algo público se transforme em algo privado com estas viragens rocambolescas pelo meio? Como é possível aceitar-se que um qualquer indivíduo transforme algo que é nuclear na Cultura lisboeta num condomínio privado com acesso restrito? Como é possível aceitar que o domínio público camarário, que é de todos os lisboetas, se torne propriedade privada apenas de alguns?

Deixo à reflexão, com uma nota de profunda indignação, revolta e desprezo por todos aqueles que tiveram  a possibilidade de resolver este problema mas que por, incúria, incompetência, favores, o que seja, não resolveram. E não, não se trata de saber se foi a inspiração para o melhor capítulo de abertura de toda a literatura portuguesa, não se trata de saber se é a melhor descrição de toda a literatura portuguesa. Trata-se sim de um profundo desgosto ao ver situações destas e que me fazem pensar que, se é este o povo que temos, então é o triste destino que estamos a ter que merecemos. Tenho dito.

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